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12/04/2005 17:19
Para onde?
Nada como a morte para nos fazer refletir sobre a vida. Algo tão normal morrer alguém. Todos os dias milhares de seres que habitam este lugar se vão. E aqui fica a pergunta: para onde? Quando eu ainda professava uma religião, não hesitaria em responder a isto com sorriso e cara de quem diz obviedades: Para onde? Ora... Para o Céu, direto ao Paraíso. Isto é tão certo quanto o ar que respiro. Respirava... O fato é que o modo de enxergarmos a vida um dia muda. E comigo este processo tem se dado de modo até cruel, a ponto de eu estar sempre confuso em relação aos meus princípios, incerto das minhas certezas.
Não enxergo o paraíso tão facilmente como antes. Pudera! Antes de acontecerem tantas coisas em minha vida eu era um indivíduo destinado a ser menos um. Menos um a questionar, a não estranhar, menos um a ter vontades. Não que haja hoje em mim esta força de contestação, este impulso de reivindicar. Isso ainda pulsa em mim de maneira leve, quase como um broto, erguendo-se, abrindo-se lento. Se vai tornar-se um dia uma frondosa árvore, daquelas que até incomodam com suas folhas e frutos que caem aos montes, só ao fim da vida saberei, no momento de olhar para trás e saber a que me prestei. E nem há em mim, também, este pré-conceito com os que possuem seu credo, que os tacha de ignorantes indesejáveis, de pessoas sem pensamento próprio. Não acredito plenamente nisso por razões óbvias. Todos fazemos escolhas.
Mas, para onde, mesmo? Como disse, nada mais sei a respeito. Mas não seria bom ter me mantido naquela crença? Ter em que acreditar é tão melhor, tão mais fácil, tão mais suportável. O sumo pontífice que morosamente se despediu há pouco deveria ter muitos motivos para não se importar com o que vinha depois da partida, enquanto aconteciam os ritos. Para ele, quem sabe, havia mais esperança, menos receio. Santificado seja e boa sorte com Caronte.

enviada por Gil
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